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Miniconto ''Quem sou eu?"

Quem sou eu?  A grande pergunta, o grande questionamento. "Quem sou?" Perguntei devaneante. "Sabe-lá", respondeu meu amigo enquanto a fumaça de seu cigarro subia em névoa espiralada pelo céu. "E quem saberá, então?" Perguntei rindo e afastando a fumaça que se aproximava de mim. Era costume dele fumar nas longas noites solitárias ao meu lado ou sozinho, mas ele não tinha o hábito. Não era viciado, dizia. Depois de outra baforada, um sorrisinho surgiu em seu semblante. "Somos e estamos. Nada é limitado". Voltando o olhar para mim, dividi o silêncio ao seu lado, enquanto olhávamos as estrelas da madrugada. Não precisávamos de mais palavras. As luzes da cidade não nos alcançavam. Éramos sombras disformes naquele horário. Naquelas horas incertas éramos pensantes, perdidos... Para que limitações, afinal? Tudo é e não é, como já diria Riobaldo .  (Fotografia de Thalya Amancio, 2021 )

E agora, Drummond?

Pintura de Carlos Drummond de Andrade feita Gerson Vieira O que há de novo? Já olhou o melhor de hoje? A festa acabou O vinho escorreu A bateria acabou E agora, meu caro?   Não Não seria José Seria Maria Bem cacheada Bem lisa Gorda, fina Elas, eles Sendo quem pensam ser Vomitando um pouco de pixels Um pouco de energia Um pouco de nada E agora, minha cara?   O app travou A tela trincou Ele não respondeu Só visualizou Só pagou presença A mesma que te deixou raivoso A mesma que te deixa triste E agora, meus caros? E agora, você!   A vontade é a mesma A cabeça ainda é baixa O real ainda assusta E o pixel forma o melhor mundo E agora, minhas caras? E agora você! O abraço é mente O gosto é travoso A festa acabou O vinho escorreu E nada Nada aconteceu...

Crônica: Strange days, dias estranhos

  (Fotografia de Thalya Amancio, 2019). Strange days. Dias estranhos.   " Morning, keep the streets empty for me ", ouço ecoar ao meu ouvido, como um sussurro de boa noite. Enquanto meio mundo dorme, minha mente está tumultuada pela minha presença. E essa é a hora em que mais refletimos sobre o Universo e tudo mais. E é aí que me lembro de um dia... Em uma aula do ensino médio, enquanto participávamos de uma dinâmica, um dos garotos mais calados - se não o mais calado - foi convidado a entregar uma caixa. Essa era a dinâmica em que cada participante escolhia quem era mais inteligente, quem era mais comunicativo, simpático e por aí vai, seguindo as instruções do professor, claro. Depois de muito rodar naquela brincadeira, a professora, no caso, pediu que ele entregasse a caixa à pessoa mais criativa naquela sala. Para minha surpresa, ele olhou a sala cuidadosamente e como a timidez e a introspecção o deixava mais livre a observar melhor cada pessoa na sala, ele entregou ...

Encontro com o Outro simbolizado na Barata: resenha de A Paixão Segundo G.H de Clarice Lispector

(Fotografia de capa da versão em ebook para o Projeto Mediando Encontros de Thalya Amancio, 2021). Para leituras complexas, vindas de escritoras e escritores que realizam a quebra de barreiras, de tradições literárias, quebras de espaços, contextos, narradores e personagens é uma boa ideia começar por textos mais curtos dessas e desses. Contos, ensaios, crônicas são portas de entrada para suas temáticas.                         ( Esse método é muito recomendado para que nos adaptemos com a linguagem, a escrita e a estética de determinadas autoras e determinados autores) E para o caso desse romance aqui resenhado, não é diferente. Entramos em uma crise existencial e no desmanchamento das estruturas da personagem G.H, uma mulher que pensava ter sua vida toda organizada e sedimentada. Contudo, depois de seu encontro com a barata no quarto de sua ex empregada, Janair, G.H entra no deserto e na despersonificação de si mesma. A pers...

A Rainha do Ignoto (1899) de Emília Freitas: Redescobrindo Uma Obra Esquecida da Literatura Brasileira.

  Lançado no ano de 1899 em uma tipografia fortalezense, o romance A Rainha do Ignoto trazia em seu enredo temas e personagens não muito comuns para a tradição literária da época. Para compreendermos o complexo processo de “memoricídio” pelo qual essa obra passou, retrocederemos até a metade do século XIX para conhecer um pouco de sua autora. Emília Freitas era cearense, nascida em 1855, na região de Jaguaruana, mas na época pertencente a Aracati. Desde a infância, Emília entrou em contato com livros e rodas de conversa em sua casa, que a aproximavam do mundo intelectual. Com a morte do pai aos quatorze anos de idade, sua família acabou tendo que se mudar para a capital, Fortaleza, afim de recomeçar uma nova vida diante das dificuldades financeiras e o baque emocional do luto. É na capital cearense que Emília se forma no Curso Normal, voltado a formação de professoras primárias da época, como também se dedicou aos estudos da Língua Inglesa e Francesa. Além de ficcionista, Emília se...

Algumas Considerações Sobre Édipo Rei de Sófocles

Escrita por volta de 427 a.C. pelo dramaturgo Sófocles, Édipo rei se caracteriza como umas das obras trágicas mais memoráveis já registradas pela literatura.  Tal história, que já foi concebida em diversas versões, em sua concepção original conta a trajetória de Édipo, um jovem que através de um oráculo, elemento típico da religiosidade grega, descobre ser o indivíduo que um dia matará o pai e se casará com sua progenitora. Atordoado, Édipo sai de sua cidade e após um desentendimento com um velho em uma estrada acaba por matá-lo, sem saber que o sujeito é, na verdade, seu pai. Chegando a cidade de Tebas, Édipo conhece Jocasta com quem se casa, tem quatro filhos: Antígona, Ismênia, Polinices e Etéocles e torna-se rei. Anos se passam e quando uma praga ameaça a paz da cidade de Tebas, esterilizando os ventres e a terra, Édipo recebe a grande notícia de que todo aquele antro de horror e morte só acabará quando for descoberta a identidade do assassino de Laio, antigo rei da pólis teban...

Admirável mundo novo do pensamento independente: criando autonomia e independência no processo educacional a partir de A Pedagogia da Autonomia

(Imagens de duas edições da obra. Realizei a leitura e resenha utilizando da edição da segunda imagem). Informações:   Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa/ Paulo Freire — São Paulo: Paz e Terra, 2001 — 18ª edição (Coleção Leituras) 168 páginas ) (Fonte:  https://novaescola.org.br/conteudo/460/mentor-educacao-consciencia ) Admirável mundo novo do pensamento independente  Resenha De uma coisa, qualquer texto necessita: que o leitor ou a leitora a ele se entregue de forma crítica, crescentemente curiosa. É isto o que este texto espera de você, que acabou de ler estas “Primeiras Palavras'' (FREIRE, 1996, p. 22).  Publicado em 1996 por Paulo Freire, o conhecidíssimo educador, divulgador e filósofo, A Pedagogia da Autonomia foi seu último livro escrito ainda em vida. Nordestino, nascido a 19 de setembro de 1921 em Recife, cursou direito pela faculdade de Direito de Recife, mas nunca chegou a exercer a profissão, pois se viu “enfeitiçado” pela ...