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A Rainha do Ignoto (1899) de Emília Freitas: Redescobrindo Uma Obra Esquecida da Literatura Brasileira.

  Lançado no ano de 1899 em uma tipografia fortalezense, o romance A Rainha do Ignoto trazia em seu enredo temas e personagens não muito comuns para a tradição literária da época. Para compreendermos o complexo processo de “memoricídio” pelo qual essa obra passou, retrocederemos até a metade do século XIX para conhecer um pouco de sua autora. Emília Freitas era cearense, nascida em 1855, na região de Jaguaruana, mas na época pertencente a Aracati. Desde a infância, Emília entrou em contato com livros e rodas de conversa em sua casa, que a aproximavam do mundo intelectual. Com a morte do pai aos quatorze anos de idade, sua família acabou tendo que se mudar para a capital, Fortaleza, afim de recomeçar uma nova vida diante das dificuldades financeiras e o baque emocional do luto. É na capital cearense que Emília se forma no Curso Normal, voltado a formação de professoras primárias da época, como também se dedicou aos estudos da Língua Inglesa e Francesa. Além de ficcionista, Emília se...

Algumas Considerações Sobre Édipo Rei de Sófocles

Escrita por volta de 427 a.C. pelo dramaturgo Sófocles, Édipo rei se caracteriza como umas das obras trágicas mais memoráveis já registradas pela literatura.  Tal história, que já foi concebida em diversas versões, em sua concepção original conta a trajetória de Édipo, um jovem que através de um oráculo, elemento típico da religiosidade grega, descobre ser o indivíduo que um dia matará o pai e se casará com sua progenitora. Atordoado, Édipo sai de sua cidade e após um desentendimento com um velho em uma estrada acaba por matá-lo, sem saber que o sujeito é, na verdade, seu pai. Chegando a cidade de Tebas, Édipo conhece Jocasta com quem se casa, tem quatro filhos: Antígona, Ismênia, Polinices e Etéocles e torna-se rei. Anos se passam e quando uma praga ameaça a paz da cidade de Tebas, esterilizando os ventres e a terra, Édipo recebe a grande notícia de que todo aquele antro de horror e morte só acabará quando for descoberta a identidade do assassino de Laio, antigo rei da pólis teban...

Admirável mundo novo do pensamento independente: criando autonomia e independência no processo educacional a partir de A Pedagogia da Autonomia

(Imagens de duas edições da obra. Realizei a leitura e resenha utilizando da edição da segunda imagem). Informações:   Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa/ Paulo Freire — São Paulo: Paz e Terra, 2001 — 18ª edição (Coleção Leituras) 168 páginas ) (Fonte:  https://novaescola.org.br/conteudo/460/mentor-educacao-consciencia ) Admirável mundo novo do pensamento independente  Resenha De uma coisa, qualquer texto necessita: que o leitor ou a leitora a ele se entregue de forma crítica, crescentemente curiosa. É isto o que este texto espera de você, que acabou de ler estas “Primeiras Palavras'' (FREIRE, 1996, p. 22).  Publicado em 1996 por Paulo Freire, o conhecidíssimo educador, divulgador e filósofo, A Pedagogia da Autonomia foi seu último livro escrito ainda em vida. Nordestino, nascido a 19 de setembro de 1921 em Recife, cursou direito pela faculdade de Direito de Recife, mas nunca chegou a exercer a profissão, pois se viu “enfeitiçado” pela ...

Um fato histórico sob outros pontos de vistas: resenha de "Memorial do Convento" de José Saramago

(Fotografia de Thalya Amancio, 2020. Edição da Bertrand Brasil, 2008)   Memorial do Convento (1982) do autor português José Saramago, é um romance histórico que constrói sua narrativa em torno de um fato histórico, mas como outros do mesmo gênero literário, decide recontar certo momento e contexto, utilizando de certos artifícios: a perspectiva daqueles envolvidos nesse fato, suas vidas, suas histórias; a história dessas pessoas praticamente esquecidas. Perspectivas essas, ignoradas ou negligenciadas nos documentos reais, pois o foco ficaria/ficou sob os reis, rainhas e nobres. Nesse caso, a obra se volta para o século XVIII e o relato dos desejos, medos, dificuldades e problemas enfrentados por aqueles e aquelas que diretamente ou indiretamente tiveram suas vidas mudadas, por conta de uma promessa do rei D. João V - a construção do convento de Mafra - quando sua esposa, D. Maria Ana não gerava herdeiros. "Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franc...

A Angústia da existência: Angústia de Graciliano Ramos

  (Edição de 2019) (Edição comemorativa de 75 anos de Angústia , versão digital.   Imagem de Thalya Amancio) "Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa. Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por destrás do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, m...

Pelas Veredas da Fantasia: Um Breve Panorama da Antiguidade ao Século XIX.

  Já dizia Carl Sagan na famosa série Cosmos que “para achar a verdade, precisamos tanto de imaginação, quanto de ceticismo.” Essa percepção de dúvida e contemplação pode ter sido a primeira forma de abstração que os seres humanos adquiriram no Paleolítico Superior (50.000 a 10.000 a.C.) e que possibilitou que crenças em planos e seres transcendentais tenham criado um imaginário sobrenatural entre os humanos. As famosas perguntas “De onde venho?”, “Para onde vamos?”, “O que é o céu?”, “O que é a Terra?”, “O que é a vida?” se tornaram não apenas exercícios mentais na contemplação existencial do indivíduo em si, mas também construiu redes de socialização e poder.   Na obra O horror sobrenatural na literatura (1927) , H. P. Lovecraft cria uma linha cronológica da literatura fantástica. Para o autor, a ideia do fantástico está interligada à literatura desde que o homem adquiriu a habilidade de construir redes de sociabilidade e comunicar-se, seja por gestos, palavras ou grunhido...

Conto distópico "Sem Rosto"

(Sob o véu, 2020, fotografia de Thalya Amancio). Sem Rosto Thalya Amancio Eu não tenho rosto ou eles? Enquanto encaminho mais um atestado de óbito, minhas crises se esvaem e o único eco é vazio da certeza de escrever, caracterizar, arquivar. Desumanizar. O eco do trabalho mecânico. Eu não me deixo ir por muito tempo por mares revoltos de mim. Há boatos de que essa viagem não tem passagem de volta. E talvez eu não possua coragem para me aventurar, como fez Ismael. A caça a baleias pode ser adiada, mas não sei por quanto tempo. Eu nem deveria saber ou pensar sobre isso. É intermitentemente proibido. Contudo, eu faço. Sinto culpa? Tempo… É sempre ele a ditar minha vida. Talvez eu sempre tenha me preocupado com o tempo, mas agora parece que estou sendo esmagada por seu peso, um barulho de ossos se quebrando, estilhaçando, como vidro? O tempo… Uma unha quebra, mal a olho. O sangue começa a escorrer e é como se finalmente recobrasse. O barulho do trabalho mecânico não me prende, eu v...