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Um fato histórico sob outros pontos de vistas: resenha de "Memorial do Convento" de José Saramago

(Fotografia de Thalya Amancio, 2020. Edição da Bertrand Brasil, 2008)   Memorial do Convento (1982) do autor português José Saramago, é um romance histórico que constrói sua narrativa em torno de um fato histórico, mas como outros do mesmo gênero literário, decide recontar certo momento e contexto, utilizando de certos artifícios: a perspectiva daqueles envolvidos nesse fato, suas vidas, suas histórias; a história dessas pessoas praticamente esquecidas. Perspectivas essas, ignoradas ou negligenciadas nos documentos reais, pois o foco ficaria/ficou sob os reis, rainhas e nobres. Nesse caso, a obra se volta para o século XVIII e o relato dos desejos, medos, dificuldades e problemas enfrentados por aqueles e aquelas que diretamente ou indiretamente tiveram suas vidas mudadas, por conta de uma promessa do rei D. João V - a construção do convento de Mafra - quando sua esposa, D. Maria Ana não gerava herdeiros. "Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franc...

A Angústia da existência: Angústia de Graciliano Ramos

  (Edição de 2019) (Edição comemorativa de 75 anos de Angústia , versão digital.   Imagem de Thalya Amancio) "Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa. Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por destrás do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, m...

Pelas Veredas da Fantasia: Um Breve Panorama da Antiguidade ao Século XIX.

  Já dizia Carl Sagan na famosa série Cosmos que “para achar a verdade, precisamos tanto de imaginação, quanto de ceticismo.” Essa percepção de dúvida e contemplação pode ter sido a primeira forma de abstração que os seres humanos adquiriram no Paleolítico Superior (50.000 a 10.000 a.C.) e que possibilitou que crenças em planos e seres transcendentais tenham criado um imaginário sobrenatural entre os humanos. As famosas perguntas “De onde venho?”, “Para onde vamos?”, “O que é o céu?”, “O que é a Terra?”, “O que é a vida?” se tornaram não apenas exercícios mentais na contemplação existencial do indivíduo em si, mas também construiu redes de socialização e poder.   Na obra O horror sobrenatural na literatura (1927) , H. P. Lovecraft cria uma linha cronológica da literatura fantástica. Para o autor, a ideia do fantástico está interligada à literatura desde que o homem adquiriu a habilidade de construir redes de sociabilidade e comunicar-se, seja por gestos, palavras ou grunhido...

Conto distópico "Sem Rosto"

(Sob o véu, 2020, fotografia de Thalya Amancio). Sem Rosto Thalya Amancio Eu não tenho rosto ou eles? Enquanto encaminho mais um atestado de óbito, minhas crises se esvaem e o único eco é vazio da certeza de escrever, caracterizar, arquivar. Desumanizar. O eco do trabalho mecânico. Eu não me deixo ir por muito tempo por mares revoltos de mim. Há boatos de que essa viagem não tem passagem de volta. E talvez eu não possua coragem para me aventurar, como fez Ismael. A caça a baleias pode ser adiada, mas não sei por quanto tempo. Eu nem deveria saber ou pensar sobre isso. É intermitentemente proibido. Contudo, eu faço. Sinto culpa? Tempo… É sempre ele a ditar minha vida. Talvez eu sempre tenha me preocupado com o tempo, mas agora parece que estou sendo esmagada por seu peso, um barulho de ossos se quebrando, estilhaçando, como vidro? O tempo… Uma unha quebra, mal a olho. O sangue começa a escorrer e é como se finalmente recobrasse. O barulho do trabalho mecânico não me prende, eu v...

"A América que os Europeus Encontraram" de Henrique Peregalli.

PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. - 13ª ed. Rev. Atual. – São Paulo: Atual, 1994. – (Discutindo a história). Com contínuas publicações já feitas, A América que os europeus encontraram é uma obra pertencente a coleção de pequenos livros acadêmicos Discutindo a história , sendo este volume assinado pelo uruguaio radicado no Brasil, Enrique Peregalli. Formado em Filosofia pelo Instituto Filosófico e Teológico do Uruguai, tendo se mudado para o Brasil mediante pressões do governo militar uruguaio, que derrubou sindicatos e movimentos do país, Peregalli também cursou História na USP e concluiu seu doutorado em História da América. Com esse histórico, podemos imaginar um pouco da inquietante narrativa deste estudioso das culturas nativas ameríndias. Dividido em sete capítulos, A América que os europeus encontraram traz ao conhecimento do público uma narrativa de revolta e concernente com nuances marxistas, fazendo de Peregalli integrante do grupo de analistas do...

Aprendendo uma Nova Língua: Dicas Para Imergir na Prática de Ouvir e Falar.

Quando estamos aprendendo uma língua, mais do que meras regras e normas para formular uma pergunta ou responder a uma, precisamos estar preparados para diversas situações ao longo do dia. Isso é importante de ser compreendido, porque aprender uma língua é também imergir em uma visão de mundo. A composição das palavras refletem um pouco do que diversos povos pensaram acerca do que os rodeavam e como eles se expressaram diante disso. Por isso, se quer conquistar a aquisição de uma nova língua e deseja vive-la de forma mais integrada como sua língua materna, almejando até mesmo sair do país e morar fora, leia essas dicas e tente coloca-las em prática! 1 - PARE DE FICAR DE OLHO NA TRADUÇÃO DAS LEGENDAS. Que tal ver sua série preferida na língua original? Se você deseja aprender inglês, francês, japonês ou qualquer outra língua, tente ver programas na língua que você deseja, de forma que dispense em determinado momento até mesmo as legendas com a tradução. Isso é importante para que você as...

"O Conquistador" de Federico Andahazi.

ANDAHAZI, Federico. O conquistador. Tradução de Antonio Fernandes Borges. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.   A obra vencedora do Prêmio Planeta em 2006 O Conquistador , lançada neste mesmo ano sob o título original El Conquistador é de autoria do romancista e contista argentino Federico Andahazi. Graduado em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires, Andahazi já lançou grandes sucessos, sendo o maior deles o polêmico premiado best-seller O anatomista. Já tendo trabalhado como psicanalista, esse autor busca em suas personagens as mais diversas facetas e sentimentos, revelando personalidades complexas, no caso de O conquistador , até mesmo contraditórias, mergulhadas em um fluxo cultural diferente e instigante para quem deseja uma leitura fora dos meandros contemporâneos e ocidentais de vida. Um pós-modernista ávido, Andahazi revela nesta obra tomada de pessimismo uma narrativa ágil e simples, sendo comparado logo em um primeiro momento a um romance juvenil qualqu...